®

A PEPSI-COLA® já estava presente no Rio Grande do Sul antes mesmo da inauguração da fábrica em 1953. Em um escritório na Av. Caldas Júnior, no centro de Porto Alegre, uma garrafa de PEPSI® ficava à mostra, sobre a mesa. Era a sala do advogado Heitor Pires. Ele já havia iniciado a obsessão por trazer o refrigerante para o estado e montar uma grande fábrica. Os gaúchos ainda nem sabiam que a Coca-Cola® tinha um concorrente fora do Brasil, e um português naturalizado brasileiro já havia arquitetado a vinda da PEPSI® para o país.

Heitor Pires era um obcecado. Seu objetivo era fazer da PEPSI® o melhor e mais vendido refrigerante do Rio Grande. E ele conseguiu! A PEPSI-COLA® e o Comendador já eram figuras indissociáveis. A cada evento que a empresa promovia, Heitor Pires supervisionava os preparativos e, sempre que sobrava tempo, comparecia. Sua figura era uma das mais populares da sociedade porto-alegrense.

Os convites para jurado de concursos, paraninfo de formaturas, palestrante e homenageado surgiam toda semana. Heitor Pires foi acumulando títulos como a Comenda, entregue pelas mãos do presidente de Portugal, Craveiro Lopes. Ele participava da maioria destas cerimônias e geralmente oferecia PEPSI-COLA® como agradecimento. O Comendador explorava sua imagem como garoto propaganda do refrigerante. E levava essa missão a sério. Em um dos concursos para a escolha da Miss UMESPA (União Metropolitana dos Estudantes Secundaristas de Porto Alegre), Heitor Pires foi um dos jurados. A organização ofereceu ao júri uísque envelhecido 12 anos. O Comendador pediu que misturassem o seu com PEPSI® e queria que os outros jurados provassem a mistura. Ele queria provar que PEPSI® combinava com qualquer outra bebida e com qualquer ocasião. Heitor Pires aproveitava qualquer oportunidade para divulgar o produto. Chegava, inclusive, a alardear que a PEPSI-COLA® fazia bem para o estômago. O refrigerante, para o Comendador, era sempre um bom remédio.

Em 1954, o Comendador foi notícia na revista da PEPSI-COLA® americana, a 'International Traveller'. O suicídio do presidente Getúlio Vargas, em agosto daquele ano, havia provocado uma grande revolta no país, principalmente no Rio Grande do Sul, o reduto de Vargas. As pessoas saíram para as ruas e apedrejaram os jornais que eram contra Vargas e também as multinacionais, combatidas pelo presidente. Heitor Pires convocou 30 homens e foi armado com uma metralhadora defender a fábrica da PEPSI®. O Comendador ficou lá de plantão, mas nem teria sido preciso. O prédio da empresa permaneceu intocado pela população que agitava as ruas. Fatos como esse fizeram a fama de Heitor Pires nos Estados Unidos, país da PEPSI®. Fora do Brasil, o Comendador era conhecido como 'Mister Pepsi'. Heitor Pires e sua esposa frequentavam a casa do dono da PEPSI®, em Nova Iorque. O prestígio do Comendador era absoluto.

Heitor Pires não poupava esforços nem perdia tempo com 'moralismos' para alcançar o sucesso que desejava para o seu refrigerante. O Comendador introduziu a barganha como estratégia de marketing. Ele falava com comerciantes e garçons, 'convencendo-os' a vender PEPSI-COLA®, com muitos brindes e engradados do refrigerante. Tudo era válido na guerra pelo mercado.

A obsessão de Heitor Pires pela PEPSI®, somada à sua personalidade perfeccionista, resultou em um patrão exigente e rígido. Os funcionários tinham hora para entrar, jamais para sair. O Comendador cobrava a máxima lealdade e dedicação dos seus empregados. Ele dizia que "quando se entra na PEPSI, só se vê PEPSI". A imagem de Heitor Pires como patrão ainda é polêmica. Alguns ex-funcionários o descrevem como um homem duro, enérgico e até grosseiro que não poupava ofensas para cobrar um erro. Para esses empregados, o Comendador não pagava bons salários e explorava os seus funcionários. Certa vez, um caminhão da PEPSI® capotou e o Comendador estava justamente passando pela mesma rua do acidente. Heitor Pires desceu do carro, foi até o caminhão e demitiu o motorista sem nem lhe perguntar se ele estava bem. Alguns funcionários eram demitidos e readmitidos umas cinco vezes. Uma das histórias do patrão Heitor Pires, conta que, em uma ocasião, o Comendador despediu um empregado sem nenhuma razão aparente. Ele ordenou que o funcionário fosse acertar as suas contas no depto. pessoal e foi dar uma volta pela fábrica. Minutos depois, durante a supervisão da fábrica, o Comendador encontrou-se com o empregado demitido e pediu que ele ficasse. Heitor Pires não era apenas rígido, mas também muito imprevisível.

Outros empregados da PEPSI® descrevem o Comendador como um homem simples, que tratava de forma igual a qualquer funcionário, do operário ao gerente. Quando alguém pedia um aumento, Heitor Pires levava o empregado até a sua sala e concedia um abono, nem que fossem apenas alguns trocados, mas os pedidos sempre eram considerados. Muitos ex-empregados pintam uma imagem paternalista do Comendador, um patrão acessível e que reconhecia com boa remuneração o esforço dos seus funcionários. Quando algum empregado, até mesmo das empresas que prestavam serviços para a PEPSI®, tinham alguma festa na família, Heitor Pires o presenteava com barris de gelo e garrafas de PEPSI-COLA®. Sua única exigência era a devolução dos cascos e dos refrigerantes que sobrassem. No natal os funcionários da PEPSI® recebiam presentes em dinheiro, uma espécie de 13º salário. O Comendador instituiu a participação nos lucros da empresa para os empregados, uma prática comum atualmente mas que na época foi muito inovadora. Os empregados recebiam ainda outras bonificações por bons serviços realizados como incentivo, para que a dedicação à empresa sempre se mantivesse. Havia ainda festas para as famílias dos empregados nas datas festivas, em que as crianças recebiam presentes e muita PEPSI-COLA®.

Das contradições sobre a imagem que as pessoas guardaram de Heitor Pires, algumas certezas podem ser extraídas. O Comendador era um patrão exigente e os funcionários, independente do cargo, deviam dedicar-se totalmente a empresa. Era comum ver o chefe de depósito ou mesmo o próprio Heitor Pires, descarregando um caminhão, se faltasse gente. A empresa devia estar sempre em primeiro lugar. O Comendador costumava dizer que a PEPSI® era como o "exército de Napoleão - por onde passava, levava tudo de arrasto".

E foi com essa obstinação que Heitor Pires realizou esse efeito inédito no mundo: vencer a Coca-Cola®, após a rival já ter dominado o mercado. PORTO ALEGRE É ATÉ HOJE O ÚNICO LUGAR EM QUE A PEPSI® CONSEGUIU VIRAR O JOGO!

 


© COPYRIGHT 2017 - Webmaster - Fernando Basto