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A PEPSI® era moda no Rio Grande do Sul. Todos bebiam o refrigerante da família rio-grandense. As promoções e os eventos patrocinados pela PEPSI® eram sempre sucesso de público. E a marca continuava como a preferência gaúcha.

Neste contexto, Heitor Pires encerra sua história com a PEPSI®, deixando a empresa em abril de 1964. Várias versões são contadas para esta partida. Heitor Pires desistia da sua maior obsessão ou o controle da fábrica lhe fugia das mãos?

No tempo que o Comendador dirigiu a fábrica, a PEPSI-COLA® e a ÁGUA RAINHA® eram os únicos produtos que a empresa distribuía. Nos Estados Unidos, a PEPSICO® (internacional) já comercializava a MIRINDA®, o refrigerante de laranja que concorria com o semelhante da Coca-Cola®, a Fanta®.

Algumas pessoas que trabalhavam na PEPSI® naquela época garantem que o Comendador estava resistindo à introdução da MIRINDA® no mercado gaúcho, pois acreditava que esse refrigerante não tinha condições de concorrer com a Fanta® laranja. E este teria sido o motivo que levou Heitor Pires, o 'Mister Pepsi', a se desentender com a PEPSICO® (internacional) e a perder a franquia do refrigerante no Rio Grande do Sul. Outras pessoas que participavam da 'Guerra das Colas' negam essa versão. A Fanta® teria sido lançada apenas em 1965, após a saída de Heitor Pires. Logo este não poderia ser o motivo para a saída do Comendador. Conta-se, inclusive, que a Fanta®, da empresa Coca-Cola®, era chamada de 'Pepsi de laranja', tal a força do nome PEPSI® no estado.

A obsessão de Heitor Pires pela PEPSI-COLA® pode ter decretado o final da franquia do refrigerante para o Comendador. Nas suas investidas diárias para fazer da PEPSI® o refrigerante preferido dos gaúchos, cobrindo as cidades de azul e vermelho, marcando presença em todos os acontecimentos e patrocinando outros tantos, Heitor Pires pode ter excedido os limites. O esquema que garantiu a implantação da PEPSI®, com a adesão da comunidade portuguesa, as promoções e os patrocínios que popularizaram o refrigerante e o transformaram na coqueluche gaúcha tinha um custo muito elevado. As estratégias foram verdadeiramente um sucesso e atingiram a todos os seus objetivos, mas Heitor Pires queria sempre mais. Esse afã do Comendador de associar a PEPSI® a tudo que acontecia na cidade, estampar a sua marca em todos os pontos imagináveis, produzir tudo que estivesse ligado ao processo de fabricação e engarrafamento do refrigerante, como as tampinhas e as próprias máquinas, em determinado momento foi exagerado.

O Comendador queria tanto emplacar o seu refrigerante e fixar a sua marca que não soube quando era preciso se conter. As táticas que fizeram o sucesso da PEPSI® no Rio Grande do Sul, fazendo deste o único lugar no mundo que esta marca tirou da COCA® a liderança do mercado de refrigerantes, perderam para o seu próprio criador. Heitor Pires cometeu excessos dispensáveis. Quando a margem de lucro era pequena,  o Comendador não repassava esse prejuízo aos seus 'patrícios', para que o prestígio da PEPSI-COLA® não fosse ameaçado junto aos comerciantes. Para conquistar novos pontos de venda, Heitor Pires dava descontos tão elevados, que chegou a se dizer que a PEPSI® não era vendida, mas vendada. Na guerra das garrafas, Heitor Pires aceitava os cascos da Coca-Cola®, que destruía e vendia os cacos de vidro a um preço muito mais baixo.

Para cobrir todos esses gastos, Heitor Pires deixava de pagar à matriz o concentrado do refrigerante, que equivalia a 20% dos custos da produção. Com o tempo, essa dívida foi aumentando até culminar com a entrega da franquia para a PEPSICO® (internacional). Mas essa não é a última versão para este fato. *No ano de 1963, o Comendador adoeceu. Muitos dizem que foi esse o motivo do seu afastamento da PEPSI-COLA®, fazendo com que o Comendador vendesse as suas ações.*

*Nota: Realmente, Esse foi, o motivo do afastamento de Heitor Pires do comando da "REFRIGERANTES SUL RIO-GRANDENSE S/A -  PEPSI-COLA BRASIL - . Ele começou a desenvolver os primeiros sintomas do   'mal de alzheimer', sem diagnóstico na época, para essa doença degenerativa do cerébro (perda progressiva da memória afetando, inclusive, a perfeita coordenação de suas faculdades mentais) e também passou por problemas circulatórios (enfarte). A PEPSICO INTL' (EUA) comprou as ações da empresa, a um preço irrisório, aproveitando-se, inclusive, de sua doença, na negociação das mesmas. Isto me foi relatado por minha avó, Heloísa de Toledo Pires, sua mulher, desde que eu tinha 11 anos de idade, no ano em que ele morreu .

Apesar de não haver consenso sobre o final da franquia, a única certeza existente é que foram as estratégias implantadas por Heitor Pires as reponsáveis pelo sucesso do refrigerante no estado. Graças a ele, a PEPSI-COLA® permaneceu na liderança do mercado até 1985, vinte anos após a saída do Comendador da empresa.

Sete anos após deixar a PEPSI-COLA®, no dia 27 de janeiro de 1971, aos 64 anos, Heitor Pires morreu, vítima de câncer*.

*NOTA: Heitor Pires, na realidade, morreu vítima de uma 'trombose (isquemia) cerebral', conforme diagnosticou o Dr. Jacintho Godoy, seu médico particular na época. Faço aqui a retificação a pedido de meus familiares.

O seu velório foi na Capela da Beneficência Portuguesa®, que ele havia inaugurado anos antes. O sepultamento do Comendador contou com a presença de poucas pessoas da Casa de Portugal® e da Beneficência. Porto Alegre esquecia do Comendador que havia movimentado a vida da cidade por tanto tempo. Em uma pequena nota com espaço de duas colunas, um dos jornais da cidade (CORREIO DO POVO®), fazia a sua singela despedida a Heitor Pires.


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